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Andava eu a servir às mesas, em Sagres, quando ouvi falar deste livro pela primeira vez. O Travessuras da Menina Má foi-me aconselhado por um cliente que atendi. Ter conversa nunca me foi difícil e na correria de um restaurante no algarve em pleno agosto encontrei tempo para falar com um casal muito simpático, os dois bronzeados e de sorriso fácil. As férias estavam a fazer-lhes bem. Tinham um filho da minha idade que também não conseguia encontrar emprego na área.


Eles devoravam livros e eu confessei que esse meu gosto estava adiado por tempo indeterminado devido à falta de tempo e ao cansaço constante. Só quem já trabalhou num restaurante no Algarve com uma folga semanal sabe que há cabeça para tudo menos para os livros. Uma pena! Começaram a entusiasmar-se e eu fui atrás, apontando alguns nomes de livros e escritores no bloco onde apontava os pedidos, até que o senhor me coloca a mão no braço: esqueça tudo o que dissemos! Esqueça esses livros. A menina vai ler o Travessuras da Menina Má. Não me lembra agora do escritor, é um que é peruano. Que estupidez não me estar agora a lembrar do escritor. Mas leia esse. É incrível! 


Já não me lembro do rosto de nenhum deles mas lembro-me da voz do homem a dizer-me isto com convicção agarrado ao meu braço. Às vezes as paixões fazem-nos ficar em memórias alheias. O nome da obra ficou-me na cabeça e eu descobri, meses depois, que o escritor peruano cujo nome fora esquecido era Mário Vargas Llosa, prémio Nobel de Literatura em 2010, e que o livro recomendado era mesmo, mesmo incrível!


Está bem escrito e a história faz comichão, fez-me sentir pena, raiva, borboletas na barriga e surpresa numa viagem às emoções que dura 50 anos. Talvez tenha sido por isso que quando terminei de ler este livro fiquei com aquela sensação de que falta alguma coisa, aquela melancolia tão boa que só os grandes livros conseguem dar. Somos transportados para Paris, Londres, Tóquio e outras cidades e há referências à imposição da ditadura militar no Peru e à extinção do regime democrático, entre outras críticas do escritor. Mas acima de tudo é um livro sobre amor nas suas várias formas: tóxico, sincero, desesperado, piedoso.


Não se deixem enganar pela capa, que nesta edição e na minha opinião é um susto de feia e não faz juz ao que está lá dentro. Um livro para voltar e ideal para quem gosta de romances.