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Sobre O Amor nos Tempos de Cólera: que coisa mais linda! Não é à toa que é considerado um dos mais belos sucessos de Gabriel García Márquez (juntamente com o Cem Anos de Solidão, que também quero muito trazer para aqui mas ainda tenho de pensar por onde começar).
Este livro é resumido por muitos como uma grande história de amor, embora eu ache fazer mais sentido dizer que é uma grande história de desconstrução do amor. Ou, se quiseres, uma grande história de muitos amores: fétidos e doentes, reais e utópicos, contraditórios, tristes, obsessivos, desencontrados. É sobre o amor que cheira a velhice. É sobre o amor que cheira a casa de putas. É sobre o amor conjugal, cru, mesquinho, mas que, graças à arte do Gabo, acaba por ser bonito.
“Outra coisa bem diferente teria sido a vida para eles, se tivessem sabido a tempo que era mais fácil ultrapassar as grandes catástrofes matrimoniais do que as pequenas misérias do dia a dia. Mas se alguma coisa tinham aprendido juntos era que a sabedoria só nos chega quando já não nos serve para nada."
Se vais ler isto a achar que é só mais um romance sobre amor e uma cabana, nem tentes. O próprio título já antevê imediatamente que o palco para um enredo de amor não é o melhor: um país que vive aterrorizado pela cólera, deixando milhares de pessoas mortas ao Deus dará, apodrecendo esverdeadas ao sol com um tiro de misericórdia entre os olhos. E também a palavra cólera enquanto sentimento de ódio, raiva e ira, retratada através das diversas analogias às guerras civis.
A escrita n’O Amor nos Tempos de Cólera é maravilhosa e poética, faz-nos suspirar e sofrer. Como só os grandes livros conseguem fazer. A história acontece ao longo de mais de meio século e é incrível a capacidade do escritor em fazer-nos viajar no tempo através de saltos temporais, brincando com o passado e o presente, provocando a atiçando a nossa curiosidade mas sempre com uma clareza brutal que nos faz entender em que parte da história estamos. Tem apontamentos altamente cómicos, que tornaram este livro como o primeiro que me fez rir a sério e com vontade, embora já tenha lido alguns de índole cómica que me roubaram um sorriso ou outro, mas não a ponto de gargalhar. Ler é mesmo bom, porra!
“(...) mas deixou-se levar pela sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as suas mães os dão à luz, mas que a vida os obriga uma e outra vez ainda a parirem-se a si mesmos”
Ler O Amor nos Tempos de Cólera é demorar a leitura por saber que algum dia chegaria à última página, se bem que eu acabei por fazer o que faço sempre que gosto muito de um livro: devorar, impaciente e sôfrega de curiosidade. Em cinco dias.
Gira tudo à volta de três personagens, entre elas o doutor Juvenal Urbino e a Fermina Daza – só o nome desta gente já me dá vontade de rir -, mas a personagem que se destaca é a de Florentino Ariza. A figura mais complexa do enredo e que ganhou toda a minha amizade e compaixão (e por momentos, até a minha raiva, asco e repulsa, embora não possa dizer porquê de modo a não criar o famoso spoiler). É possivelmente o telégrafo mais louco e insano da história da literatura, o mais feio e simultaneamente o mais sedutor, o mais romântico e apaixonado e sonhador e estranho – altamente estranho – personagem do livro. Ah, e psicopata. E também o mais triste, o mais persistente, que me comoveu pelo simples facto de ser alguém por amor; de comer por amor; de se cuidar por amor. De viver pelo amor. Isto é daquelas coisas que na vida real não dão jeito nenhum à saúde mental, mas que num livro é a coisa mais linda do mundo inteiro. Esta personagem eu também interpretei como ligação ao próprio título: o amor dele por Fermina é como a Cólera. É uma doença altamente grave.
“Bastou-lhe um interrogatório insidioso, primeiro a ele, depois à mãe, para comprovar mais uma vez que os sintomas do amor são idênticos aos da cólera.”