Tenho vivido assim, entre o cagaço de uma página em branco e o bichinho que me dá o embalo que preciso para continuar a criar este lugar onde respiro, onde me desdobro e me entendo, onde me perdoo e me partilho contigo. É sempre preciso coragem para sermos quem somos sem nevoeiros a esconder as falhas, sem fumos a tapar as quedas. Estou aqui inteira, resultado de horas de namoro com o Moleskine mas acima de tudo porque agora sei o que fazer a isto tudo que me fervilha na cabeça. Agitei dentro do estômago o mundo inteiro que tenho bebido e agora preciso de calmaria. Vou criá-la aqui, enquanto me aprendo a silenciar.


Não cheguei mais cedo porque para partir do aconchego é preciso aprender coisas importantes primeiro. Estou a tentar. Da melhor maneira que consigo. Sei que trilhar um caminho do zero dá trabalho, cansa as mãos e a pele, exige de nós a resiliência, a perseverança e o afinco que nem todos vão construindo porque é árduo ser-se o que é preciso quando é preciso, mas nunca menosprezes um sonhador determinado.


Estou aqui porque seria cegueira crónica eu não tentar, recusando-me a correr o risco, cedendo ao medo de falhar e remoendo um sonho entre os dentes. Não quero que a minha vida seja o que foi acontecendo. Olha, sucedeu-se assim e assado. Sem querer. Foi surgindo. Fui fazendo. Calhou. Tenho medo de submissões perante a vida na minha idade. Aninhar-me no manto da resignação e do conformismo seria sempre um fracasso infinitamente maior do que todas as frustrações que se possam adivinhar. Eu fui parida para ser feliz e é por essa crença maior do que os passos que há por dar, que agora decido dar-me aqui, sem levar demasiado a sério a opinião dos outros. Eis-me aqui: sou fotógrafa, escrevo todos os dias desde que me lembro de ser gente, todos os dias gosto de mim mais um bocadinho. Quero fazer isto só porque sim, sem medos, sem vergonhas, sem desistências. E com o único combustível de que preciso: aqui eu vou ser feliz para caraças!