Certa manhã acordei cheia de lata e decidi convidar a Cátia para uma sessão fotográfica, através do instagram. Se nos conhecíamos? Não. Se ela sabia que eu existia? Também não, mas ela era a Cátia dos livros e isso bastava-me. Esta coisa das redes sociais não me serve para contemplar a tosta de abacate dos outros: eu quero ser inspirada! Seguia-a há alguns anos porque partilhava com ela o gosto pelos livros, pela dança das palavras num serão em silêncio, por passeios bonitos... e às sete da tarde de um dia solarengo lá estávamos nós à porta dos Jardins da Gulbenkian.

Imaginei as fotografias da Cátia com cores vivas, com leveza, com flores, e mesmo depois de um "não tenho jeito nenhum para estas coisas" eu tinha a certeza de que íamos criar coisas bonitas. Fui a três floristas à procura de túlipas e lá as encontrei, vivaças à minha espera, numa loja do El Corte Inglés.

Falámos de livros e escritores, desgostos amorosos e das maravilhas de se fazer terapia. Percebemos que temos as duas a mesma sede de viver, de procurar a beleza das coisas, de navegar dentro de nós sem medo, mesmo que às vezes se encontrem lugares escuros. E acabámos por prolongar uma sessão fotográfica de 45 minutos num jantar com direito a vinho tinto e a brindes.

Que voltemos a brindar, Cátia, a nós, aos livros e à liberdade de sermos o que somos; que voltemos a brindar às túlipas caras que nem cornos, mas que tinham de ser túlipas porque eu imaginei assim; que voltemos a brindar aos jardins bonitos, aos restaurantes com bom vinho, ao amor. E sobre as misérias da vida, que voltemos a brindar mais ainda, que isto de nos rirmos delas dá muito trabalho.